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Análise: Carrion

Parece que o jogo virou, não é mesmo?

Alguma vez na vida, você já viu um filme de terror, e imaginou como seria estar na pele do monstro que os heróis buscam tanto derrotar? Pois bem, chegou a sua oportunidade. Carrion, o primeiro jogo da produtora polonesa Phobia Game Studio, te oferece essa oportunidade, num Metroidvania pra lá de intenso e divertido.

 

Chamado de “Jogo de Terror Reverso” pela produtora, você assume o papel de ser amorfo que escapou da contenção do laboratório. Sem forma definida, apenas uma massa de tentáculos, entranhas e dentes, você precisa navegar pelas áreas do laboratório com apenas um objetivo: Matar.

Carrion 6

E matar é o que você vai fazer bastante. Chegou a hora de dar o troco na humanidade por ter te criado ou tentado te conter ou tentado fazer experiências… Na realidade, não dá para saber. Diferentemente da maioria dos jogos modernos, que sempre te enchem de coisas para ler para entender o que está acontecendo, em Carrion, você realmente se sente uma criatura estranha que acabou de conhecer o mundo.

E essa é uma grande vantagem do jogo. O tutorial inicial é direto ao ponto. Os humanos fogem de você, você tem tentáculos para se mover, e quando esses tentáculos encostam num ser humano, você se alimenta deles e recupera o que perdeu de vida.

O jogo não explica muita coisa, mas não é necessário. A jogabilidade é fluida, e é muito gostoso pular de um lado para o outro da tela pintando-a de vermelho. A gravidade não é um problema, diferentemente da maioria dos Metroidvanias, que costumam usar as diferenças de níveis como limitadores, aqui, o que limita sua movimentação são as barreiras que os humanos colocaram para tentar te impedir de se movimentar livremente. E falando em se mover livremente, o jogo te permite alterar os controles, então caso os controles iniciais não te agradem, é só mudar para uma configuração com a qual você se sinta mais confortável. Isso é especialmente importante porque quanto maior você fica, mais difícil é de saber qual lado é a frente e qual não é.

Carrion 2

E nem tudo são flores na vida de um simbionte parasita alienígena, seja lá o que você for. Alguns humanos não correm de você; correm na sua direção. Com armas. São os inimigos mais frequentes que você enfrenta, e às vezes, é necessário se esconder, ou pensar bem na forma que vai atacar. A maioria das salas te permite apenas entrar loucamente batendo em todo mundo e atacando geral, mas há soldados especiais, com escudos que te impedem de acertá-los, além de armas mais fortes e lança-chamas. E eles machucam. Realmente machucam, e te fazem sair correndo, em chamas, buscando um lugar com água para apagar o fogo, enquanto toma dano.

Mas eles não são os únicos inimigos. Há humanos também em robôs equipados com metralhadoras, drones que te caçam e atiram loucamente, além de minas e outras estratégias, e quando o mapa tá cheio dessas coisas, em alguns momentos, várias delas ao mesmo tempo, você vai morrer se tentar entrar de uma vez.

E a morte é um problema no jogo, porque os pontos nos quais você pode salvar são esparsos, e muitas vezes, uma morte exige que você volte muito e resolva novamente um puzzle que você já tinha resolvido. Conselho de amigo: se você passar por um puzzle especialmente complicado, antes de avançar, volte para o ponto de salvamento mais próximo, pra não ter que fazer tudo de novo caso morra adiante. Muitas das salas te permitem voltar, mas há algumas, especialmente conforme o jogo vai chegando ao seu final, que te trancam do lado de dentro, e você só consegue sair depois de derrotar todo mundo… ou morrer tentando.

Carrion 1

Falando nos desafios, o mapa todo é muito bem desenhado, e as áreas específicas do laboratório são bem definidas, o que te ajuda quando uma pequena cutscene te mostra onde o dispositivo que você abriu se moveu. É útil porque o jogo não tem mapa. Talvez na ideia de te fazer se sentir mesmo como o monstro do tema, não há nenhuma forma de você saber aonde está indo. Isso normalmente não é um problema, o design dos níveis é bom o bastante para que as comportas e barreiras criadas pelos humanos são removidas de tempos em tempos, de forma orgânica, e é bem intuitivo, mesmo sem isso. Mas se você abrir um dispositivo, e for distraído, vai se perder, o mapa seria útil pra isso.

Sobre os dispositivos, há formas diferentes de você ativá-los, e essa é outra parte bem legal do jogo. Há várias chaves em vários lugares. Algumas, você precisa só estender o tentáculo e puxar. Outras, você precisa jogar uma teia e empurrar. Noutras, você precisa assumir o controle do cérebro de um ser humano, pra que ele alcance o dispositivo e aperte por você. De qualquer forma, não há nada de muito complicado, mas ainda assim, é divertido ver o que o jogo pede de você.

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Mais que isso, se não há limitação de altura, já que a gravidade não significa nada para você, o jogo limita as áreas que você pode acessar a partir dos poderes que te dá. Em diversas salas diferentes, você pode quebrar vidros contendo experimentos, absorvê-los para você, e assim, ter novos poderes, que vão desde os supracitados teia e controle de mente, até escudos e poder de invisibilidade. E essa é outra sacada incrível do jogo: Você não tem acesso a todos os poderes o tempo todo. Seu monstro tem três tamanhos diferentes, cada qual com seus poderes. A questão é que quanto menor, menos vida você tem. E não são raros os momentos nos quais você precisa desovar uma parte de você (ou tomar dano de propósito) para voltar à menor das formas e poder ficar invisível, e logo que passa para a próxima tela, se vê numa sala cheia de inimigos enquanto você está em sua forma mais vulnerável. Isso faz com que o jogo nunca seja linear, em termos de dificuldade, mas se alterna em ondas, com momentos menos e outros mais intensos.

Há uma mudança no ritmo do jogo, que é quando você assume o controle de um humano para fazer determinadas ações. Não dá para saber se essas ações são passado, se são futuro, se estão acontecendo naquele momento, o jogo não explica, mas são alguns puzzles interessantes de serem resolvidos. Talvez saibamos mais sobre quem é esse humano em uma possível sequência, porque com certeza, o jogo merece.

Mais para o final do jogo, quando você tem muita liberdade, é quando o jogo se perde um pouco. Com acesso liberado a quase todo o mapa, é inevitável querer explorar tudo de novo para ver que áreas se consegue acessar com os novos poderes. Mas se você se afastar demais do próximo ponto, pode não conseguir voltar facilmente, e, sem mapa, isso pode ser frustrante, e fazer com que algumas pessoas larguem o jogo sem concluí-lo, o que é uma pena. Essa jornada de 5 a 7 horas por Carrion é muito divertida, e por apenas 20 dólares, vale a pena.

O som do jogo é sensacional, os movimentos do monstro são acompanhados pelo som grotesco de algo nojento se esgueirando pelos corredores, as armas soam diferentes, dependendo de qual for, e a trilha sonora contribui para uma ambientação típica de terror. Você vai se sentir num filme.

Carrion é um divertido Metroidvania reverso, no sentido de que você faz as vezes do vilão, e não dos humanos. Se a proposta já é boa, a execução foi ainda melhor, e superou as minhas expectativas. O mapa faz falta, e seria legal ter um pouco mais de história, mas porque eu sou curioso, e gosto de saber o que acontece. Para o jogo em si, é plenamente possível se divertir muito, mesmo sem isso.

85%
Empolgante

Carrion é um divertido Metroidvania reverso, no sentido de que você faz as vezes do vilão, e não dos humanos. Num universo de games cheio de anti-heróis e escolhas morais complicadas, aqui, você apenas se diverte destruindo e devorando tudo o que vê pela frente.

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