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Domínio público nos games: uma discussão necessária

Pegue sua Brastemp, Electrolux, ou qualquer outra líder de mercado. É hora de lavar a roupa suja – mais uma vez. Também faça um café, já deixo avisado que esse texto não está resumido. Justamente para não deixar o dito pelo não dito.

Pirataria. Só de ouvir essas letras, até o diabo treme. Tabu pra quem é contra, libertinagem pra quem apoia. Se você curte a Nintendo, certamente já teve que se deparar com uma longa e nem um pouco afável discussão com outros fãs (ou quem só quer ganhar visibilidade em cima de ódio). Cada um tem sua própria opinião, é impossível cravar uma posição definitiva. É um debate que sempre vai retornar de tempos em tempos. É o verdadeiro gatilho pra quem quer desencadear uma guerra na comunidade. Provavelmente mais dia menos dia devo cair em contradição também. Afinal, a hipocrisia é quase uma característica nata do ser humano. É quase impossível ser 100% coerente a vida toda, para vossos desencargos de consciência desde já. Isso tudo aqui não é tribunal para julgar ninguém.

Mas vamos discutir mais a fundo. O que exatamente caracteriza pirataria? Onde fica a linha tênue entre um discurso elitista excludente e um total desrespeito com as regras de mercado? Onde a tal “zona cinzenta” se encaixa, numa das mais jovens indústrias de multimídia? Existe domínio público nos jogos? E como finalizar essa discussão de uma vez por todas – se é que isso é possível? São muitas perguntas. E as (prováveis) respostas você vai ler aqui. Não fecha essa guia, te asseguro que você vai gostar. Pelo menos aqui não tem a Loira do Kwai nem paywalls pra te impedir de ler. Tudo de graça!

𝒜𝓇𝓉𝒾𝑔𝑜 𝑒𝓍𝒸𝓁𝓊𝓈𝒾𝓋𝑜 𝓅𝒶𝓇𝒶 𝒶𝓈𝓈𝒾𝓃𝒶𝓃𝓉𝑒𝓈 𝒹𝑜 𝒮𝓌𝒾𝓉𝒸𝒽 𝐵𝓇𝒶𝓈𝒾𝓁 𝒫𝓇𝑒𝓂𝒾𝓊𝓂

 

A ‘síndrome de Jack Sparrow’ do brasileiro

Ok. Pirataria não é nenhuma novidade. Desde quando existe multimídia, existe a prática. Quem viveu lá nos idos dos anos 80-2000, certamente deve se lembrar dessas práticas. Numa época em que praticamente não existiam mídias digitais na proporção atual, a pirataria era “raiz”. Desde o DVD pirata do filme que acabou de sair no cinema vendendo em camelô, até o MP3 Player mais legítimo que você pode imaginar. Nada escapava.

Essa prática na época começou a detonar pouco a pouco com a indústria. Afinal, porque pagar 15 reais numa sessão de cinema quando eu posso pagar 3 em quem foi lá e filmou tudo (ainda que com áudio e imagem sofríveis)? Soa quase ilógico. Apesar de uma excelente alternativa para o cliente – independente de classe social – isso minava a produção de mídias. Em especial a nacional.

Suponhamos que você foi ao cinema assistir a um filme (dá pra fazer outras coisas lá também, justamente por isso especifiquei). Naquele ingresso, estão divididos todos os valores necessários para produzir a obra: salário dos atores e da equipe de produção, custos de manutenção do próprio cinema, tributos, etc. Um excelente mecanismo. Ao pagar por aquele serviço, você está reconhecendo e prestigiando o trabalho de quem produziu e colaborou pra que você pudesse pegar a pipoca e passar duas horas na telona. Ao comprar o mesmo filme pirata, tudo isso vai por água abaixo. Ninguém ganha mais um centavo com a produção. O valor vai todo pra quem copiou e revendeu o produto final.

O famoso “barato que sai caro”

A princípio, não faz diferença. Afinal, três reais não pagam nem a limpeza do assento do cinema. Mas lembre-se: foi só você que comprou o filme pirata? Com uma alternativa em conta, cada vez mais gente vai aderir. E quem produziu o longa fica de mãos abanando. E eu acho que ninguém aqui trabalha de graça, de acordo? (Tirando esta que vos escreve, eu sou remunerada com seus cândidos e meigos comentários aqui embaixo me detonando <3). Isso praticamente se tornou uma cultura enraizada no brasileiro. Não à toa, subimos de 3º lugar em 2018 para a liderança mundial de pirataria digital em 2020.

Mas ok. Hoje em dia isso tudo é passado. Estamos na era do streaming, afinal. Hoje em dia, cinema é só fachada. Saiu o filme, já tá no Netflix, ou na sua plataforma favorita. Em tempos de pandemia, isso acabou sendo vital para a manutenção da indústria em si e dos atores. Se eu quero ouvir uma música, eu abro o YouTube ou Spotify, dou play e pronto. Assim como na TV e no Rádio, anúncios bancam os custos, ou você pode pagar pelo serviço e ter mais regalias. Mas e nos jogos?

Versões físicas são cada vez mais escassas. Não é mais como antigamente, você não vai mais na locadora às sextas, aluga um Mortal Kombat pro SNES, e joga o fim de semana inteiro. Hoje em dia, um simples download e pronto: tá lá seu jogo. Isso abriu brecha pra toda uma nova gama da mesma palavra tabu: pirataria. Assim como no resto da indústria em geral, jogos são um produto com valor agregado. Para você ter em mãos a última versão de Animal Crossing, Mario Kart, ou qualquer outro jogo, uma equipe com milhares de pessoas passou meses – ou até anos – trabalhando com afinco naquilo. E bem, como eu disse ali em cima, ninguém trabalha de graça, certo?

O valor do game que você compra é o responsável por repassar os zilhões de custos para uma operação em escala global. Seu jogo não apareceu na loja (seja ela presencial ou digital) do nada. Alguém teve que preparar ele.  Alguém trabalhou para isso. Ok, realmente existem cartolas que ganham muito mais que o necessário nisso tudo, é fato. Mas isso é algo recorrente em toda a indústria, seja em qualquer lugar. E não foram eles que produziram o jogo. Seu ato revolucionário de baixar jogos indiscriminadamente sem pagar pode até vir a acabar com a burguesia. Pensamento de 1789, meus caros. O proletário que você nem conhece (provavelmente porque pula os créditos, estou certa?) também vai se prejudicar nisso. E, diga-se de passagem, até mais que o capitalistinha de cartola que você tanto quer derrubar.

Ah sim, antes de finalizar esse tópico, gostaria de endossar que de nada vale criticar o preço de qualquer produto sem saber os motivos dele. Não adianta de nada reclamar em troca de likes que um “jogo X não vale o seu valor”, e ignorar o fato de estarmos em um país de terceiro mundo, com a economia completamente estraçalhada há anos. Se você paga caro em coisa de fora, sugiro primeiro compreender tudo o que o cerca. Nenhum valor é decidido de forma aleatória.

Contar uma curiosidade pra vocês: Não são só 5 caras podres de ricos que trabalham aí, sabiam?

 

Pão e circo para todos

Mas ok, vamos colocar todos os pesos igualmente na balança. É absolutamente injusto colocar apenas a questão do ponto de vista do produtor. Afinal, a cultura deve sempre pertencer ao coletivo para existir. O acesso ao entretenimento deve pertencer a todas as classes sociais. Se hoje Mario é um personagem conhecido internacionalmente, isso se deve a toda a cultura que se criou em cima dele, abrangendo desde o garoto mais rico de Oslo até o mais humilde de Aleppo.

Na situação atual do Brasil, tal direito vem se tornando cada vez mais impraticável. Com o Dólar atingindo médias recordes, produtos importados têm a tendência de ficarem cada vez mais caros – e consequentemente inacessíveis ao público em geral. No cenário atual, isso vem já mostrando suas consequências: jovens de classes mais baixas pouco a pouco vêm mudando sua forma de jogar. Não é realista gastar quase um terço de um salário mínimo (que em muitos casos é a renda total da família) em um jogo, essa é a infeliz realidade. Games não são como alimentos como bolo e chá, num exemplo totalmente hipotético. Não são arroz e feijão. Games não são alimentos. Não são essenciais (e se você acha que são, com todo o respeito, há algo de errado com você). Com isso, grande parte vai migrando para o mobile.

O maior exemplo do sucesso desse êxodo é Free Fire. O jogo (que deixe endossado aqui para evitar qualquer julgamento prévio, DEFINITIVAMENTE não faz o meu tipo), é um dos maiores fenômenos entre a geração atual. O número de jogadores é ainda maior nas periferias ao redor do país. O acesso gratuito a um jogo – ainda que repleto de microtransações – se tornou um dos ícones do entretenimento de massas. Cada vez mais pessoas de comunidades vem usando o “frifa” como instrumento de mudança da sua realidade. Através de um público identificado, eles encontram a ascensão social. Por menos que você goste do game, é quase uma necessidade reconhecer esse mérito dele. Hoje em dia, manter um dispositivo que tem serventia apenas para jogos não faz sentido nessa realidade. Não faz sentido no orçamento de uma casa pequena ter um PS5, um Switch, um Series, grosso modo.

Atualmente, um relé celular já tem uma capacidade de processamento estonteante. Isso garante que mais um tópico por aqui já possa ser engatilhado: a emulação.

Free Fire é bom? Na minha opinião não. Mas pouco a pouco, jogos desse gênero estão se tornando cada vez mais populares – por serem acessíveis. Esse é o ponto da discussão

 

Phone Boy Advance 2

Ok, eu já fui completamente avessa aos emuladores de celular. Grande parte sempre apresentou (e ainda apresenta) um grande prejuízo na experiência de jogo. Mas sejamos francos: por pior que sejam, eles são necessários.

Não me refiro aos emuladores mais recentes, como os de 3DS e Switch. Jogar algo neles é completamente perda de tempo. Para consegui-lo de forma confortável, é necessário rios de dinheiro num aparelho ou dispositivo com as capacidades gráficas suficientes. Basicamente, sai mais barato você comprar o próprio console do que o aparelho para emulá-lo.

Mas vamos focar nos consoles descontinuados, como o DS, SNES, e o famosíssimo GBA. Grande parte dos dispositivos atuais conseguem rodar com folga jogos como Donkey Kong Country, Pokémon Emerald, Mario Kart DS e afins. Clássicos, que mesmo após no mínimo uns 15 anos, ainda seguem tão atuais quanto suas versões mais recentes. Muita gente que vive atualmente na realidade citada no último tópico pode ter – ainda que dessa forma – acesso a esses jogos. Novas gerações, que não viveram os loucos dias no passado, podem descobrir pérolas da indústria pela primeira vez na vida, ainda que essas obras sejam tão velhas quanto elas próprias. E esse é o fato que deve ser levantado, e que vai adentrar o nosso último ponto: o domínio público.

 

De volta a superfície

Por fim, vamos entrar no cerne principal do texto. O motivo que fez você chegar até aqui. Afinal de contas, qual é a diferença entre pirataria e domínio público? Entre o sim e o não, onde fica o talvez? E qual seria o critério pra definir esse talvez, se existir?

Primeiramente, vamos colocar as cartas na mesa. Lembra quando eu disse ali em cima os motivos para qual a pirataria pode ser considerada algo errado? Pois então. Temos que saber diferenciar as atitudes. Na indústria em geral, após um certo tempo, filmes, livros, entre outras coisas mais caem em domínio público.

Isso significa que o autor não pode mais conseguir lucros com ele. Na verdade isso acaba sendo mais direcionado à família do mesmo, uma vez que é muito difícil que o detentor original dos direitos autorais ainda esteja vivo na época que isso ocorrer. Porém estamos falando de uma margem de 70, 80 anos. A própria indústria dos jogos não se enquadra nisso, afinal, muito mal ela alcançou meio século de existência.

Apesar disso, sejamos francos: a produção de games é um dos maiores acervos em atividade da história. Para se manter, todo ano novas obras são lançadas. E para continuar gerando lucros, criações mais antigas vão sendo descontinuadas. Atualmente, por exemplo, você não encontra mais um jogo de Wii sendo vendido ORIGINALMENTE no site ou lojas representadas pela Nintendo. Isso significa que caso você compre um jogo para o console, o dinheiro não estará sendo entregue para quem deveria, uma vez que ele já caiu em desuso, e tal repasse não é mais possível por meios comuns.

Truco. Temos aqui o conceito de domínio público. Definitivamente não é certo ter jogos gratuitamente em consoles atuais por meios ilícitos. Ainda mais se você TIVER condições para comprá-los. Alguém está ganhando para aquilo. Uma coisa que eu muito noto – e que beira a hipocrisia – é o povo que praticamente estoura uma revolução por ver jogo da Nintendo a 300 reais, mas paga mais em um jogo de outra empresa. Detalhe: sem reclamar.

Mas voltando ao tópico. Olhe para trás, toda a gama de games (trocadilho intencional) que já foram produzidos. Olhe o tanto de consoles, o tanto de histórias que foram deixadas de lado pelo tempo. Olhe para essas gerações de crianças que nunca nem sequer tocaram num controle de GameCube, que nunca viveram a emoção de jogar Metroid Prime, Smash Melee, entre outros, e perderam o respeito por eles justamente por nunca terem jogado os mesmos. É a volta à superfície dos jogos descontinuados.

Parabéns, você pagou por uma mídia original. Saiba que 100% desse valor entrou no bolso de uma pessoa 0% afiliada à Nintendo =)

Através dos novos jogos, não é possível continuar trazendo novos fãs, não é possível rejuvenescer a comunidade. São com esses antigos – muitas vezes emulados – que isso pode ser possível. A criança que joga num emulador hoje, pode ser a que vai fazer coleção amanhã. E jogando neles, vai ter a mesma experiência que alguém nas décadas passadas teve. Sem requintes de gráfico, língua, nem nada. Vai ter a mesma escola. E vai se divertir do mesmo jeito.

Antes de terminar, um ponto que se tornou um parágrafo muito importante para se ressaltar aqui, afinal, não custa nada deixar tudo bem explicadinho. Esse texto não teve em nenhum momento o foco em memorabilia, ou seja, coleção. Se você tem interesse em manter um acervo físico, assim como essa que vos fala, saiba que você tem um honrável e excelente ponto! A argumentação aqui é destinada especialmente à aqueles que querem apenas jogar os jogos em si.

Mas enfim. Seria errado emular um jogo no qual os produtores originais não recebem mais um centavo na produção deles há um bom tempo? Seria correto gastar fortunas no mercado cinza em uma obra que se encontra nesse status? E qual seria uma das possíveis soluções cabíveis para reduzir ou dar um fim na praga da pirataria de uma vez por todas? Deixo essa discussão em vossas mãos. Reflitam sobre e me contem seus pontos aqui nos comentários. Até mais!

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