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Porque não temos um jogo “bom” de Pokémon?

A verdade é que existem quatro fundamentos individuais que definem isso. E não, você não odeia essa geração. É seu subconsciente que faz tudo por você.

Há cerca de um ano e meio, lá em 2019 (parece que foi há muito tempo já, não?), a comunidade de Pokémon entrou em um estado de quase “guerra civil”. O motivo? Um repentino descontentamento com os então novos lançamentos de Pokémon Sword e Shield (Switch). Para quem não lembra, ainda não era fã, ou algo similar, vamos voltar um pouco no tempo.

No começo daquele ano, veio a revelação dos esperadíssimos novos jogos de Pokémon para o híbrido da Big N. É fato que aqueles não eram os primeiros jogos principais da franquia no console, afinal, Let’s Go Pikachu & Eevee haviam sido lançados alguns meses antes. Mas agora se tratava de outro nível, uma novíssima geração.

Na época do anúncio, o alvoroço foi tremendo para muitos, seja positiva ou negativamente. Alguns amaram à primeira vista. Outros acharam que era um “mero port do 3DS”. A nova geração repercutiu por certo tempo, mas foi aí que veio o primeiro baque. Tivemos no Pokémon Day de 2019 o anúncio dos títulos dos jogos, a revelação da região e seus três iniciais. E só. Entre fevereiro e junho, absolutamente nenhuma novidade fora revelada sobre os jogos. E vivendo aquela época, você poderia facilmente ter pensado que teria sido melhor se tivesse parado por aí mesmo. O que não foi o caso.

Os gráficos de Let’s Go são uma aplicação prática do “conceito do sarrafo”. Vamos entender melhor isso mais abaixo

O estopim do Dexit e a “guerra” da comunidade

Junho de 2019, Pokémon Press Conference. Foi ali que começou oficialmente a temporada de caça – mas não aos monstrinhos. Naquela ocasião, Junichi Masuda, um dos cabeças da franquia, revelou os novos planos da franquia para o próximo ano. Pokémon Masters, (o sumido) Sleep e HOME. Este último em especial, foi para os fãs de Pokémon o que a invasão da Polônia pela Alemanha em 1939. Para quem não entendeu, foi detonada ali a “guerra”.

A declaração de Masuda que só poderiam ser transferidos de HOME os Pokémon na Pokédex de Sword e Shield gerou o maior alvoroço imaginável (a propósito, o da foto aqui embaixo é Tsunekazu Ishihara, não confunda). Afinal, ninguém sabia exatamente QUAIS monstrinhos pulariam o muro de Galar. Do nada, toda a expectativa dos fãs se tornou uma poça de ódio. E isso afetou o jogo gravemente. Desde as comparações com o 3DS até os apreciadores de troncos poligonais, pode-se dizer que Galar teve a pior recepção de uma geração desde a janela de 2010-11, quando Unova passou a integrar a franquia.

Mas afinal, basta de enrolá-lo, caro leitor. Vamos direto ao ponto. Afinal, o que aconteceria se a Pokémon Company resolvesse lançar um jogo tido por muitos como “bom”? Vamos elucidar tudo aqui.

Como dizem? “Momentos antes da desgraça acontecer”?

O bom. O ruim. E o que você acha.

O primeiro fator que todos devem levar em questão é a própria definição de algo “bom”. A verdade é, que por mais que a fórmula de Pokémon por si só já seja um consenso do que é a base de algo razoável, existem diversos pormenores que passam batido por praticamente todo mundo. Não entendeu? Então me diz o que você acha das Mega Evoluções, ou melhor, dos Z-Moves. Vamos ter as mais variadas respostas aqui. Desde os que amaram as duas opções, até quem acha que “Depois de Unova, virou Digimon”.

Ou seja, independente das novas adições que sejam feitas, desde uma mecânica até um mero monstrinho novo (alô, Dracovish!) irão causar discórdia entre os fãs. Isso é algo recorrente em qualquer franquia grande. Na fanbase de Zelda, Mario, ou qualquer outra série do nível, você pode encontrar algo similar, seja em maior ou menor número.

Tem quem ame e quem odeie os fósseis de Galar. Isso faz deles bons ou ruins? A resposta disso é válida apenas para você

Seu passado te condena

O segundo ponto principal a se tomar nota é o próprio conceito da nostalgia. Característica inata ao ser humano, nosso cérebro tem a tendência de sempre colocar experiências passadas em um pedestal frente a realidade. Atire a primeira pedra quem não teve memórias felizes  com seu primeiro jogo de Pokémon, seja qual for ele. Caso esse mesmo jogo fosse lançado hoje, eu posso afirmar que devido a falta desse complexo nostálgico na sua mente, as chances de você gostar desse jogo seriam ridiculamente menores, para não dizer nulas. (Cheguei a fazer um vídeo explicando mais detalhadamente a relação de Pokémon com isso, se quiser dar uma olhada, clica aqui).

Isso explicaria também o “Jogo-Vinho”. Tomei a liberdade de criar esse termo aqui para explicar de forma mais prática a condição da nostalgia. Como foi dito lá atrás, lembra como foi a recepção de Pokémon Black & White? Frases como “Pokémon Lixo”, “região horrível” e muitos outros sinônimos negativos foram usados a exaustão nos diversos fóruns, comunidades e grupos da época. Se sentindo velho, né?

O que acontece, é que assim como o vinho, essa geração envelheceu assustadoramente bem. Vá hoje em qualquer comunidade e pergunte sobre Unova: facilmente você terá uma saborosa “rasgação de seda” (elogios em excesso) para a região. E não vai ser difícil encontrar os que são adeptos fanáticos de lá, chegando ao ápice de dizer até mesmo que Pokémon desandou depois de Black & Whi- Opa, eu já falei isso aqui antes, não?

Quem poderia imaginar em 2012 que Pokémon Black & White seriam um dos jogos mais aclamados na história da franquia…

Mas tudo bem, sejamos imparciais aqui. Estaria eu defendendo a franquia mesmo após lançar um jogo “porco”? Não mesmo. E é aí que entramos no terceiro pilar dessa compreensão.

O risco de “subir o sarrafo”

Assim como no último tópico, vamos usar outro exemplo prático. Nas Olimpíadas, dentre as várias provas, temos a disciplina de atletismo, e nela está o salto com vara. Facilmente uma das modalidades mais “plásticas” dos Jogos, é a nossa mais perfeita aplicação possível para explicar de uma vez por todas o porquê não temos jogos “decentes” em Pokémon.

Além de proporcionar momentos felizes na sua juventude, Pokémon também é uma empresa. E como qualquer empresa, de qualquer ramo, ela precisa se manter comercialmente. Se parar de vender, cai na vala comum do passado. Quer mais um exemplo? Só comparar com os grandes artistas e grupos musicais dos anos 80 e 90, como Cyndi Lauper, Tina Turner, ou o a-ha. Grande parte já “pendurou o microfone”, e parou de gerar hits, que antes de mais nada era o ganha-pão deles. Quantos ainda são lembrados no nosso dia-a-dia? É mais ou menos isso que nenhuma corporação quer que aconteça com ela. E com Pokémon não é diferente.

Manter uma série por duas décadas e meia não é para qualquer um. Acompanhar a evolução da tecnologia, muito menos. Originalmente, Pokémon só deveria ter ido até a 2ª Geração. Tudo o que veio depois, foi por “culpa” do fã, que abraçou a franquia, e deu incentivo para a Pokémon Company (não confundir com Game Freak) seguir com a série. E esse é o quarto e último pilar desse conceito.

O fim da linha

O que acontece é que na prática, os jogos de Pokémon acabaram se tornando vítima da modernidade. Chegamos num patamar da tecnologia onde não dá pra ir muito mais além. Pegue um jogo triplo A de 1991 e 1996. Agora compare com lançamentos de 2015 e 2020. Ambos os casos tem cinco anos de diferença, porém o caso mais recente apresenta menos mudanças. Na sociedade em geral, chegamos no nosso limite criativo.

Cinco anos de diferença separam os lançamentos de cima dos de baixo. Notou a diferença?

Voltando ao conceito do sarrafo. Na prática, os jogos de Pokémon estão tentando resistir a esse “nível” atual. Cada evolução deve ser permanente. Com consumidores cada vez mais exigentes, não existe mais espaço para recuos de qualquer natureza. Ou seja, não devemos ver um jogo principal em 2D tão cedo. E foi esse UM DOS fatores que fez com que Sword e Shield fossem tão inferiores a um Breath of the Wild, por exemplo. Longe da desculpa de “estilos de arte”, temos que lidar com a verdade já dita aqui – Pokémon é uma empresa – e toda empresa no final das contas só quer seu dinheiro. A única diferença é a abordagem que cada uma tem. Esquece “direitos do consumidor”. No mundo cão do capitalismo isso é só um empecilho na busca desenfreada por mais e mais grana.

Mas ok. Vamos supor que Pokémon lançasse o tal jogo “BotW tier”. Esse seria um caminho sem volta, uma vez que numa realidade onde recuos não são aceitos, eles teriam que manter o mesmo nível para “sempre”. E esse é o principal perigo. Lançamentos de qualidade semelhantes causam a impressão de que é a mesma coisa sempre. Só pegar o exemplo de FIFA. Até 2010, eles usavam uma base de dados datada para PC. O salto gráfico em FIFA 11 foi estrondoso. Mas desde então, temos exatamente os mesmos modelos e animações reciclados, com um acréscimo mínimo aqui e ali todo ano. E daí veio aquela máxima de que “FIFA é a mesma coisa todo ano”. Evoluíram, e se tornaram vítima da própria melhora.

Não é que “FIFA seja a mesma coisa todo ano”. É que não tem mais para onde correr mesmo.

Alcançando o epílogo dessa argumentação, não estou dizendo aqui que Pokémon deve se manter nesse nível para sempre, claro. Só notar a evolução de XY para o próprio Sword e Shield. Em seis anos, recebemos um avanço gráfico superior ao do resto da indústria, sendo que apenas dois consoles diferentes foram usados para essa empreitada, no caso, 3DS e Switch. Essa melhora gradual assegurou que a franquia seguisse viva, e vendendo. Para nosso alívio, a tendência é que isso continue ocorrendo nos próximos anos.

E, se tem algo que eu posso assegurar para vocês aqui, é que com um ano a mais de trabalho, os remakes de Diamond e Pearl devam ser fantásticos. Mas que fique bem claro: não aumente sua expectativa. Aliás, esse é o principal erro do fã de Pokémon – criar uma expectativa irreal em cima de algo, e logo em seguida se decepcionar com aquilo. E isso vale para qualquer coisa na vida.

Olhe pra trás. Pokémon está em constante evolução (ainda que em passos de Squirtle)

Enfim, é isso. Tentei explicar de alguma maneira os motivos de não existirem jogos bons de Pokémon. Na prática, esse seria o “Santo Graal” da franquia. De resumo, quanto mais fãs uma série tiver, mais difícil será encontrar um consenso. Nem mesmo a minha própria opinião pessoal necessariamente pode ser levada em conta. A experiência de cada fã é completamente única, o que torna uma avaliação geral praticamente impossível.

Não adianta de muito Hoenn ser a geração mais amada de todas, caso exista alguém que a odeie. Para aquela única pessoa, argumentação alguma irã mudar completamente a opinião dela, vinculada intrinsecamente a sua vivência geral da franquia e dos jogos, atrelada diretamente as experiências próprias da passagem dela por esse planeta (também conhecida como vida). Ninguém é imparcial. Mas ter a ciência de ponderar os pontos negativos e positivos de tudo ao seu redor é um diferencial humano. E nos tempos atuais, é algo essencial.

Ufa, acabou. Se conseguimos despertar seu senso crítico (ou fazer sua cabeça explodir), considere compartilhar isso tudo aqui para mais gente. Algo recorrente entre muitos na comunidade de Pokémon é a falta de pensamento detalhado para notar os motivos – ainda que podres – por trás de uma decisão da franquia, seja ela certa ou errada. Colocando um ponto final nesse monólogo, também queria saber o que você tem a dizer sobre, afinal, um argumento sempre se torna mais forte quando existe um debate sobre, não? Te espero lá, e até mais!

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